A Felicidade de um pai
- Vivendo com a Osteogenesis Imperfecta
Carlos Galvão Neto
Pernambuco- Recife
A minha querida e amada Rita
me solicitou um depoimento acerca da minha experiência de vida com
a Osteogenesis Imperfecta - uma ainda breve, apesar de intensa, experiência
de seis anos, já que em Álvaro a O.I. foi prognosticada em
sua gestação.
Ao fazê-lo, temo não
corresponder às expectativas naturalmente a eles relacionadas e
que suponho satisfeitas quando da sua boa concepção, pelo
ainda muito a traduzir da O.I. e porque tão-somente pretendo, no
dizer simples deste - e talvez sabedor de que seja o que de melhor há
guardado em mim a ser exteriorizado -, a expressão sincera das minhas
profundas gratidão, desculpas e satisfação interiores.
Gratidão a Deus pela existência
em minha vida de Alvinho, da Rita, de pessoas como Célia, José
Carlos e Fátima e de todos, enfim, direta ou indiretamente, dessa
grande família O.I. - crianças, jovens e adultos, nela incluídos
- é importante assinalar -, além evidentemente dos nossos
pais, irmãos e parentes, os amigos e médicos, fisioterapeutas
e demais profissionais, principalmente os da área de saúde.
Satisfação pela oportunidade de um modesto e pessoal registro
físico da felicidade e orgulho que sinto por ser o pai de Álvaro,
por conhecer pessoalmente a muitas dessas pessoas e ainda por poder dispor
de sua inestimável amizade. O porquê das desculpas só
a Rita sabe. Ficarei então confortado ao transmitir principalmente
isso, no mais em ainda intentar reciclá-las a cada nova leitura
noutro franco e abrangente gesto de muito obrigado.
Muita fé em Deus e orações
nos prepararam de forma positiva para o nascimento de Álvaro. Entretanto,
as dúvidas, inseguranças e medos, naturais a qualquer pai
e mãe inexperientes em situação semelhante, compunham
um outro quadro que vez por outra substituía vagamente nosso pensamento
principal. Era esse quadro resultado das antecipações imaginárias
das dores e angústias futuras pelas quais pensávamos irremediavelmente
destinados a passar, como consequência da presença anunciada
e latente e com todas as letras da Osteogenesis Imperfecta em nossas vidas.
(Antevíamos tais circunstâncias naqueles momentos - muito
por conta da desatualização que existia sobre a O.I. - e
que Rita
decisivamente contribuiu para com isso
acabar -, como bem mais duras e aflitivas do que realmente seriam e são,
o que agora podemos dizer com certo conhecimento de causa.)
Em paralelo a isso, Álvaro,
alheio em sua inocência ou mais precisamente em resposta reveladora,
fazia à maneira possível na ocasião o que até
hoje sabe melhor: mexia-se intensamente, praticamente revolucionava na
barriga de Kátia, sua mãe, iniciando-nos no seu insuspeito,
luminoso e perene - do que hoje temos certeza - recado: de que quer muito
viver, de que viria ao mundo, apesar da sua "fraqueza" física genética,
com determinação, destinado a superar e mover obstáculos,
com a força de um verdadeiro lutador. Foi o que exatamente Álvaro
nos mostrou - aliviando-nos - durante a gravidez, ao difícil nascimento
e o que continua serenamente demonstrando.
Aqueles
foram os sinais iniciais de que viria, sim, como uma espécie de
anjo guerreiro, que para nossa felicidade, não é demais repetir,
e sublime aprendizado, Deus colocou nas nossas vidas ao abençoá-las.
Um lutador dos genuínos, daqueles que percebem com exatidão
que na nossa existência o único oponente real a ser debelado
somos nós mesmos, e que portanto fazem da sua fraternal e construtiva
lide o lugar por excelência da comunhão entre as diversidades,
acolhendo-as numa mesma síntese de solidariedade e amor. Daqueles
que cumprem uma jornada pacífica, em que as palmas preterem os punhos,
os abraços desarmam os golpes, e para a qual a genética e
o seu pseudo-determinismo da natureza bruta, esssa natureza estreita e
restrita, perdem o seu tão decantado sentido e valor, porque enfim
entendem e traduzem em exemplo vivo e maior que não há genética
para o espírito humano.
Sei das adversidades da O.I., acho
- não quero ser irrealista. Sei que não a sinto no corpo,
embora talvez a pressinta na alma. Acompanhei casos de crianças
que faleceram por complicações da sua severidade. Penso conhecer
das dificuldades gerais e por que passam algumas pessoas, felizmente em
muito minimizadas pelo esforço pessoal, abnegado e solidário
de Rita, Célia, Kátia, José Carlos/Fátima,
Leandra e de muitos outros de nós, dos nossos médicos, e
pela atuação coletiva concorrente da nossa jovem Associação,
pelas importantes e recentes conquistas da ABOI, desde a época do
Moacyr Oliveira Filho até os nossos dias.
Confesso, no entanto e sinceramente,
que a Osteogênese Imperfeita com a qual estou acostumado a lidar,
a que me tomou pelo pulso e coração e me insistiu para que
a conhecesse de perto é - apesar das Pedras do Caminho, como dizia
Drummond - a O.I. dos desafios e conquistas. A O.I. dos primeiros de turma,
dos estudantes, mestres e profissionais das mais diversas áreas
de atividade e conhecimento humano. A O.I. das pessoas eminentemente simples
e generosas, de todas essas inteligentes, determinadas e otimistas gentes
que vivem nos quatro cantos do nosso país.
Pessoas independentes que certamente
não são melhores nem piores que quaisquer outras, são
apenas - usando de uma expressão conhecida - diferentes. Pessoas
para as quais, por afinidade, estenderia sem hesitação tudo
o que falei sobre Alvinho.
Creio, desta forma, que especiais
somos nós, pais, familiares e portadores dessa diferença,
e que devemos a nosso modo e como pudermos celebrá-la
- em que pese a sua heterogênea
e não tão-fácil realidade.
Por tudo isso, gostaria de concluir
as palavras prometidas, que se multiplicaram ao sabor da alegria, com uma
citação que a Rita me sugere agora:
"Quando Deus marca
uma pessoa é para não perdê-la de vista."
São
Paulo, julho de 2003