| Brasília
e São Paulo, 25 de agosto de 2000 - A 'osteogenesis imperfecta severa'
é uma doença cruel. Em sua versão mais impiedosa provoca
a morte ainda no ventre e a sua principal característica é
a fratura. Sim, basta uma simples contração uterina durante
os primeiros meses de gestação para a doença iniciar
sua dança insidiosa da quebra de ossos do bebê em formação.
Fragmentam-se sobretudo os ossos longos, tíbia, fêmur, costelas,
e isso vale para todos os tipos de osteogênese imperfeita (OI), com
as devidas variações de freqüência e gravidade,
que são quatro. Mas ainda bem que a estatística mundial dessa
patologia genética sugere que ela atingiria um em cada 20 mil nascidos,
ou 0,005% da população do planeta, segundo dados do Shriners
Hospital for Children, do Canadá. No Brasil, cerca de 8 mil pessoas
seriam portadoras do mal, mas essa estatística é subestimada.
A anomalia acontece por meio de um processo bioquímico molecular
de origem obscura e que inquieta a comunidade médica desde o século
passado, quando foi descrita pela primeira vez pelo alemão Weil
Vrolik.
Sabe-se apenas
que por algum motivo o colágeno, a proteína estrutural mais
importante do corpo, sofre uma alteração e abre caminho para
a chamada displasia esquelética, explica a geneticista Chong Ae
Kim, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da
USP. Pelos estudos realizados até hoje nos Estados Unidos, Europa
e Canadá, a doença é classificada em quatro níveis.
Pode acontecer da forma mais branda, em que o paciente encerra na adolescência
(às vezes antes) a experiência da dor com as fraturas, chamada
OI benigna tipo 1, ou síndrome de Van Der Hoeve - felizmente a mais
comum e que corresponde a 70% dos casos; o tipo 2, que é letal e
equivale a 10% dos casos; tipo 3, tarda gravis, correspondendo a 20%; e
o 4, ou doença de Ekman-Lobstein, que abrange cerca de 6% dos doentes.
Salvo a letal, as outras formas podem ser tratadas com medicamentos e cirurgias
corretivas. 'Muitas crianças com osteogênese conseguem levar
uma vida relativamente normal', comenta Kim.
A brasiliense
Isadora Carvalho de Oliveira, de 9 anos, que já sofreu mais de 60
fraturas e passou grande parte da vida coberta de ataduras e capas de gesso,
poderá em breve ser uma dessas crianças que conseguem levar
uma vida 'quase normal'. Aliás, o que está acontecendo com
ela pode ser considerado um 'quase-milagre', pois daqui a três semanas,
após uma cirurgia bem-sucedida realizada na última quarta-feira,
no Canadá, ela poderá, finalmente, viver um antigo sonho:
'Andar!' - como costuma responder a quem a interroga sobre o seu maior
desejo. A essa inocente obsessão pelo movimento de andar e correr,
a medicina vem ensaiando respostas positivas, em várias partes do
mundo, em particular no Canadá. Quem ampliou o sonho de Isadora
às fronteiras da realidade foi uma dupla de médicos do Shriners
Hospital for Children, de Montreal - François Glorieux, um belga
de 60 anos, e Horácio Plotkin, um argentino de 36 anos -, com a
ajuda de um fármaco da família dos bisfosfonatos (droga com
duas cadeias de fosfato de grande poder de reabsorção óssea)
indicado para crianças com OI e que demonstra uma inusitada capacidade
de reestruturação da densidade óssea, até então
impossível com outras alternativas. 'Os médicos do Canadá
são pioneiros nesse tratamento e é lá no Shriners
onde as experiências com esse medicamento têm dado mais resultados
positivos', comenta o ortopedista Claudio Santili, da Santa Casa de Misericórdia
de São Paulo. O jornalista Moacyr Oliveira, que está em Montreal
com a mulher, Valéria Carvalho, acompanhando a recuperação
da filha, lembra que a menina passou dez meses sem sofrer uma fratura sequer,
após o uso desse remédio. 'Essa cirurgia só está
sendo possível porque o medicamento devolveu a Isadora a densidade
de sua massa óssea, fortaleceu o esqueleto', celebra o pai da garota.
A cirurgia que
permitirá a Isadora realizar o sonho de andar é complicada
e razoavelmente demorada, cerca de duas a três horas dependendo do
número de incisões a serem feitas nos fêmures e do
grau de sua curvatura. A metodologia do grupo canadense é baseada
no uso de hastes telescópicas de titânio para o implante intramedular.
Possui um mecanismo que aumenta a haste de acordo com o crescimento da
criança. O titânio é um metal leve considerado adequado
para ligaduras por sua resistência, flexibilidade e elevado grau
de biocompatibilidade com a estrutura óssea humana. No Brasil, porém,
esse tipo de cirurgia é feita com hastes de aço inoxidável
e também registra bons resultados, observa o ortopedista Roberto
Guarniero, do Hospital das Clínicas. Há um mês, Guarniero
operou Tomaz Azevedo Barra, de 9 anos, que mora em Campinas (SP) e sofre
da osteogênese tipo 1, a mais leve. Cláudia, a mãe
de Tomaz, exalta a mudança que identificou no comportamento do filho.
'Antes ele tinha muito medo das dores, de quebrar um osso, e agora está
mais seguro, vai ter mais liberdade para brincar.'
O responsável
pela operação de Isadora no Canadá é o cirurgião
ortopédico François Fassier, que realizou com sucesso cirurgia
idêntica no garoto canadense Bernard Theriault, em 1995. 'Hoje, aos
11 anos, ele é uma criança normal. Anda, corre, brinca, dança',
relata Moacyr Oliveira em matéria publicada no 'Jornal de Brasília',
no dia 4 de junho, cujo título refere-se ao nome popular da doença:
'Ossos de cristal'. Nessa reportagem, Moacyr narra o drama de Isadora e
de outras crianças e adultos portadores de osteogênese, informa
detalhes sobre o novo tratamento com a substância ativa da família
dos bisfosfonatos e mostra como a internet pode ajudar as pessoas a entender
melhor a doença e a se organizarem para acompanhar os avanços
das pesquisas. 'Esse tratamento não cura, mas melhora a qualidade
de vida dos pacientes. Estamos trabalhando numa outra linha de investigação,
a terapia genética, e se tudo der certo aí sim poderemos
falar em cura', explica François Glorieux, o chefe da equipe do
Shriners Hospital.
Não é
novidade que a imensa rede mundial de computadores exerce papel fundamental
na descoberta de aspectos curiosos da história e da cultura universais,
em diversas regiões do conhecimento. Mas para Moacyr e Valéria
não deixa de ser inédito o fato de terem descoberto pela
internet o endereço dos médicos canadenses, ao navegar pelos
portais da osteogênese na madrugada de 12 de maio de 1999, quando
Isadora acabara de sofrer mais uma série de fraturas (a anomalia
é tão atroz que em seu nível 3 ou 4, os mais graves,
basta um espirro para um osso se partir). Imediatamente enviou mensagem
a Horácio Plotkin e no dia seguinte obteve a resposta: a consulta
estava marcada para o dia 18 de agosto de 1999. Um ano após o início
do tratamento, a cirurgia abriu um novo caminho para Isadora, que é
uma criança de sorte, apesar do sofrimento e do desconforto que
a doença causou, porque teve acesso a um medicamento considerado
revolucionário, mas caríssimo, que apenas a farmácia
do HC possui para distribuir gratuitamente. Pensando nisso, Moacyr, que
é presidente da Associação Brasileira de OI, pediu
oficialmente ao Ministério da Saúde que colocasse o remédio
na lista dos fármacos excepcionais do Sistema Único de Saúde.
O pedido chegou à mesa do diretor do Departamento de Análise
da Produção de Serviços de Saúde, João
Gabbadro dos Reis, no dia 11 de novembro, mas até terça-feira,
dia 22, o assunto permanecia fora da pauta de avaliações
do ministério. Enquanto isso, quem quiser saber mais sobre o tema
pode acessar o site http://www.aguaforte.com/oi, elaborado por Rita Amaral,
antropóloga da USP, portadora de osteogênese. (Fim de Semana/Página
4) (Carlos Tavares) |