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Moacyr Oliveira Filho
Em 1995, o menino canadense Bernard Theriault, então com 6 anos,
não andava. Um ano depois de iniciar um tratamento com pamidronato
– uma substância ativa da família dos bisfosfonatos,
comercializada pela Novartis com o nome de Aredia – e fazer uma
cirurgia corretiva para colocação de hastes telescópicas
de titânio nos fêmures, começou a andar. Hoje, aos
10 anos, ele é uma criança normal – anda, brinca,
corre, dança.O peruano Hugo Rodrigo Castillo começou o
tratamento com pamidronato com apenas 13 dias de vida. É o paciente
mais jovem do mundo. Agora, aos 8 meses de idade e depois de 5 aplicações
da droga, sua densidade óssea teve um aumento de 300%, passando
de 0,050 para 0,150.
Depois de um ano de tratamento, Bernard anda normalmente
Esses são dois exemplos dos resultados positivos obtidos pelo
tratamento pioneiro com pamidronato em crianças portadoras de
osteogenesis imperfecta (OI) que vem sendo realizado, desde 1992, no
Shriners Hospital for Childrens, em Montreal, no Canadá.
Coordenado pelos médicos Francis Glorieux, um belga de 60 anos,
e seu assistente Horácio Plotkin, um argentino de 34 anos, o
estudo do Shriners começou a ser feito, em 1992, com 30 crianças
portadoras de osteogenesis imperfecta. Sete anos depois, mais de 160
crianças de todo o mundo já recebem o tratamento com pamidronato,
no Canadá – entre elas duas brasileiras. Além disso,
o Protocolo de Montreal já está sendo aplicado em outros
pacientes de 27 países, ampliando o espectro da pesquisa.
As duas crianças brasileiras que iniciaram o tratamento no
Canadá, estão continuando as aplicações
no Brasil. Uma delas, um menino de São Paulo, de 11 anos, cuja
família não quer ter seu nome revelado, tomou a primeira
dose no Canadá em fevereiro de 1998 e prossegue as aplicações
no Hospital das Clínicas, em São Paulo, sob a coordenação
da equipe dos médicos Pedro Henrique Silveira Côrrea e
Maria Odette Ribeiro Leite, do Departamento de Endocrinologia óssea
do HC. Em um ano e meio, a sua densidade óssea teve um aumento
de 46,9%.
. Outras três crianças devem começar o tratamento
no HC ainda este ano. Isadora Carvalho de Oliveira, de 8 anos, que já
teve mais de 60 fraturas, fez a primeira aplicação no
final de agosto, em Montreal, e tomará a segunda dose, em dezembro,
no Sarah, de Brasília. A sua densidade óssea atual é
de 0,151, muito abaixo da densidade óssea média de um
recém-nascido normal, que é de 0,300.
Doença rara
A osteogenesis imperfecta é uma doença de origem genética,
caracterizada pela fragilidade dos ossos, em função da
má formação do seu tecido conectivo. Por isso,
ela é conhecida como a “doença dos ossos de cristal”.
Seu principal sintoma é a ocorrência de sucessivas e, normalmente
espontâneas, fraturas, principalmente dos ossos longos. Os portadores
de osteogenesis imperfecta podem apresentar, também, deformações
do crânio, face triangular, baixa estatura, dentes frágeis,
escolioses na coluna, nas pernas e nos braços, escleróticas
azuladas, perda de audição, cansaço extremo e sudorese
excessiva. Nem sempre, no entanto, todos esses sintomas estão
presentes numa mesma pessoa. A osteogenesis imperfecta pode ser classificada,
atualmente, em, pelo menos, quatro tipos diferentes. Ela pode acontecer
na forma gravíssima, que provoca a morte do bebê no útero
materno ou logo após o seu nascimento, até em formas muito
leves, que se manifestam tardiamente. Em muitos casos, a fragilidade
e a deformação dos ossos impede a pessoa de andar.
A osteogenesis imperfecta é uma doença rara. Embora questionadas
pela maioria dos especialistas, devido ao pouco conhecimento a seu respeito
e às dificuldades de diagnóstico, as estatísticas
oficiais apontam que ela atinge 1 a cada 20 mil nascidos. Ou seja, 0,005%
da população mundial. No caso do Brasil, por esses números,
teríamos cerca de 12 mil pessoas afetadas.
Melhor qualidade de vida
Ainda não existe cura para a osteogenesis imperfecta. Até
o momento, todas as experiências realizadas com mais de 25 medicamentos
falharam. O estudo que está sendo realizado em Montreal é
o único que tem apresentado resultados concretos. Mesmo assim,
os seus autores garantem que isso não significa a cura da patologia.
“Esse tratamento que estamos fazendo não é para
curar a doença, mas sim para tentar estancar os seus efeitos
e melhorar a qualidade de vida dos afetados”, explica o dr. Francis
Glorieux. “O pamidronato não é a cura para a osteogenesis
imperfecta, porque ele não altera o defeito genético que
causa a doença”, acrescenta o dr. Horácio Plotkin.
A equipe da Unidade Genética do Shriners Hospital for Childrens,
de Montreal, dirigida por Glorieux, diante da ausência de um tratamento
médico comprovado, decidiu fazer um estudo mais detalhado sobre
a doença com o objetivo de realizar uma análise genética
das crianças afetadas e de seus familiares. “Descobrimos,
através das biópsias ósseas, que havia um aumento
da destruição dos ossos, em razão das longas imobilizações
provocadas pelas fraturas sucessivas. Como sabíamos que o pamidronato,
que já era utilizado em casos de osteoporose e câncer ósseo,
era eficiente para frear esse processo destrutivo, decidimos testá-lo
em pacientes com osteogenesis”, conta Glorieux. “Os resultados
foram melhores do que se esperava – aumento da densidade óssea,
redução da incidência das fraturas, diminuição
da dor no osso e aumento da mobilidade geral dos pacientes”, completa.
Plotkin e Glorieux trabalham na pesquisa desde 1992
Esses primeiros resultados encorajaram a equipe de Glorieux a prosseguir
nas pesquisas. Em outubro de 1998, eles publicaram no “The New
England Journal of Medicine”, uma das mais conceituadas publicações
médicas do mundo, um artigo, intitulado “Administração
Clínica de pamidronato em crianças com osteogenesis imperfecta
severa”, com as conclusões do tratamento aplicado no primeiro
grupo de 30 crianças, com idades entre 3 e 16 anos. Antes do
tratamento, todas as crianças apresentavam baixa densidade óssea.
Após o ciclo inicial de infusão da droga – que é
feita durante 3 dias a cada 4 meses – verificou-se um aumento
médio de 41,9% na densidade óssea dos pacientes, sendo
que 3 deles atingiram uma densidade óssea considerada normal.
A incidência de fraturas diminuiu de 2,3 por ano para 0,6 por
ano e 16 crianças (53%) tiveram melhoras significativas na sua
mobilidade.
O peruano Hugo Rodrigo teve, em apenas 8 meses, um aumento de 300% na
sua densidade óssea
A repetição desses resultados, em maior ou menor intensidade,
nos outros grupos de crianças que começaram a receber
as infusões intravenosas de pamidronato deram a garantia à
equipe do dr. Glorieux de que estavam no caminho certo. “Hoje,
a única dúvida que ainda temos é quanto à
duração exata do tratamento. Nós imaginamos que
ele deve ser aplicado até o paciente completar 18 anos. E temos
certeza de que, quanto mais cedo se começa, melhores são
os resultados”, garante o dr. Plotkin.
O tratamento com pamidronato é bastante simples. Ele é
feito por infusões diárias do medicamento, diluído
em soro fisiológico, na proporção de 1 mg por kg,
durante 3 dias seguidos a cada 4 meses. As aplicações
demoram, em média, de 3 a 4 horas. Nas crianças com menos
de 2 anos, essa dose é menor. Nesses sete anos, não se
verificou nenhum efeito colateral, exceto febre no segundo dia da primeira
aplicação.
Para que os efeitos do pamidronato sejam potencializados no organismo
dos pacientes, é fundamental que as crianças ingiram,
no mínimo, mil mg diárias de cálcio. “O pamidronato
funciona como um veículo para fixar o cálcio no osso.
Se o organismo não possuir uma dose mínima de cálcio
para ser transportada, os efeitos podem ser reduzidos. Por isso, a dieta
é muito importante”, explica o dr. Horário Plotkin.
Hastes telescópicas
Depois de um ano de aplicação do pamidronato, os médicos
do Shriners Hospital for Childrens recomendam a realização
de uma cirurgia para a colocação de hastes telescópicas
de titânio nos fêmures, que acompanham o crescimento do
osso. Além de corrigir as deformidades provocadas pelas sucessivas
fraturas, as hastes fortalecem ainda mais os ossos, ajudam a evitar
novas fraturas e funcionam como um importante apoio para o aumento da
mobilidade dos pacientes. O menino Bernard, por exemplo, só começou
a andar normalmente depois da colocação das hastes. Segundo
relato do dr. François Fassier, da Divisão de Cirurgia
Ortopédica do Shriners, responsável pelas cirurgias para
colocação das hastes telescópicas, 80% dos pacientes
que se submeteram à essa operação passaram a andar.
O tratamento com pamidronato realizado pela equipe do Shriners Hospital
for Childrens foi a grande estrela da 7ª Conferência Internacional
de Osteogenesis Imperfecta, que reuniu, em Montreal, de 28 de agosto
a 1º de setembro, cerca de 150 pacientes e parentes de afetados
por OI e outros 150 médicos e cientistas de todo o mundo. No
Encontro das Famílias, a equipe do Shriners apresentou exposições
multidisciplinares, abordando os aspectos médicos, cirúrgicos,
nutricionais, fisioterápicos e sociais da doença, como
integração escolar, sexualidade e discriminação.
Na reunião científica, além dos avanços
obtidos pelo tratamento com pamidronato, foram debatidos os aspectos
genéticos, biológicos, ortopédicos, clínicos
e as novas pesquisas que estão em andamento.
Satisfeito com os resultados do seu trabalho, o dr. Francis Glorieux
- atualmente uma das maiores autoridades mundiais em OI - pretende avançar
ainda mais. “Estamos trabalhando numa outra linha de investigação,
a da terapia genética, para tentarmos descobrir a origem efetiva
dessa enfermidade e como combatê-la. Aí sim estaremos avançando
no rumo da cura da osteogenesis imperfecta”, acredita.
Enquanto isso não acontece, o dr. Glorieux espera poder, até
o final deste ano, iniciar a aplicação de zoledronato,
uma outra substância, derivada do pamidronato, porém 850
vezes mais potente, que está em fase final de testes pela indústria
que produz esses medicamentos. Além da maior potência,
a nova droga traz outra vantagem: ela pode ser aplicada como uma injeção,
uma única vez, no lugar das atuais três infusões
intravenosas.
As cirurgias do Dr. Fassier, facilitam o aumento da mobilidade da criança
PARECE UMA BRINQUEDOTECA
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Para os padrões brasileiros, mesmo os mais avançados,
como a Rede Sarah, por exemplo, o Shriners Hospital for Childrens, de
Montreal, é uma surpresa agradável e fascinante.
Mantido por uma entidade ligada à maçonaria, o Shriners
oferece serviços totalmente gratuitos para todos os residentes
no Canadá e para os pacientes estrangeiros formalmente admitidos
em seus programas de tratamento.
Incrustado no pé da colina do Parc Mont Royal, um bosque perto
do centro de Montreal, visto de fora o elegante edifício do Shriners
parece tudo, menos um Hospital. A primeira sensação que
se tem é a de se estar entrando num Hotel Fazenda.
No Le Parc, as crianças brincam orientadas por terapeutas ocupacionais.
Do lado de dentro as surpresas continuam ainda mais fortes. Brinquedos
cuidadosamente espalhados por todos os lados, médicos e enfermeiras
que não se vestem como tal – os médicos, por sinal,
fazem questão de usar, nos dias de atendimento, gravatas com
desenhos de personagens de histórias em quadrinhos – salas
de recepção, consulta, exames, ambulatório e internação
decoradas com banners e papéis de parede com motivos infantis.
Tudo isso faz com que as crianças, na maior parte do tempo, se
sintam absolutamente à vontade, reduzindo o stress normal de
um ambiente hospitalar.
No andar da internação, além de um restaurante
de excelente qualidade e preços módicos, onde médicos
e enfermeiras convivem naturalmente com os parentes das crianças
internadas, existem dois ambientes especiais: o Le Parc, uma sala repleta
de jogos e brinquedos, onde terapeutas ocupacionais desenvolvem programas
especiais de recreação, e uma escola onde, em horários
especiais, as crianças recebem aulas em inglês e francês.
Isadora Carvalho de Oliveira, acostumada a conviver com hospitais
brasileiros nos seus 8 anos de vida, por conta das mais de 60 fraturas
que sofreu, definiu com precisão o que sentiu nos três
dias em que passou internada no Shriners: “Puxa, isso nem parece
Hospital. Parece mais uma brinquedoteca”.
E o mais importante de tudo: um serviço médico de primeira
qualidade. Além do tratamento, as crianças internadas
no Shriners passam por uma bateria de exames radiológicos, densitometria
dos ossos e bioquímicos de sangue e urina e seus pais recebem
orientação multidisciplinar, saindo de lá com programas
específicos de alimentação e fisioterapia, importantes
para reforçar os efeitos do tratamento clínico.
FALTA DE INFORMAÇÃO PROVOCA CONSTRANGIMENTOS
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Embora a primeira descrição da osteogenesis imperfecta
conhecida na literatura médica seja a de P. Amand, em 1715, existem
confirmações de sua manifestação muito antes
disso. No Museu Britânico, em Londres, há uma múmia
egípcia, datada do ano 1.000 AC, que mostra alterações
no esqueleto, nos dentes e nos ossos longos típicas dos portadores
da doença. O líder da invasão escandinava na Inglaterra,
no último quarto do século IX, conhecido como “Ivar,
o Sem Ossos”, era afetado pela doença. Além disso,
um fêmur esquerdo, datado do Século VII, com características
de OI, foi encontrado na Inglaterra.
Foi Willem Vrolik, um anatomista alemão, que em 1849 identificou
pela primeira vez a doença nos recém-nascidos, chamando-a
de osteogenesis imperfecta. Antes disso, em 1831, o também alemão
Edmund Axmann descreveu a doença nele mesmo e nos seus irmãos,
fazendo a primeira menção à esclerótica
azulada.
Rose-Marie, assistente social, alerta para os riscos de discriminação
Em 1859, o inglês Edward Latham Ormedod, relatou o caso de uma
mulher de 68 anos, com 1 metro de altura, que passou a doença
para uma filha e um filho. O esqueleto dessa mulher está no Real
Colégio de Cirurgiões de Londres.
Mais recentemente, em 1979, o médico australiano David Silence,
um dos maiores estudiosos da patologia, apresentou a classificação
dos quatro tipos de portadores de OI, que até hoje continua sendo
uma referência na literatura médica. A equipe do dr. Francis
Glorieux, do Shriners de Montreal, trabalha, agora, na identificação
do tipo V, alterando pela primeira vez a classificação
de Silence.
Apesar de tudo isso, a osteogenesis imperfecta, além de rara,
ainda é uma doença muito pouco conhecida, inclusive nos
meios médicos, o que dificulta o seu diagnóstico, coloca
em dúvidas as estatísticas oficiais sobre a sua incidência
e, o que é pior, submete familiares de portadores a constrangimentos
e discriminações preocupantes.
São comuns os relatos de pais de crianças com OI que
acabam acusados de maus tratos nos seus filhos pelos médicos
que atendem as crianças com sucessivas fraturas. Liduína
Ferreira da Ponte Menezes, moradora de Planaltina, no Distrito Federal,
viveu uma experiência desse tipo. Um médico do Hospital
Santa Helena, de Brasília, ameaçou denunciá-la
à polícia, depois de recebê-la pela segunda vez
na mesma semana para tratar de fraturas no seu filho, William, de 2
anos. Sua indignação com a atitude do médico, salvou-a
da denúncia. Hoje, Liduína trata seu filho no Sarah, em
Brasília, onde existem vários pacientes de OI.
A assistente social do Shriners Hospital for Childrens, de Montreal,
Rose-Marie Chiasson, relatou dois casos desse tipo, durante a 7ª
Conferência Internacional de Osteogenesis Imperfecta, realizada
no final de agosto, no Canadá. No mais grave deles, ocorrido
na Califórnia, nos Estados Unidos, o bebê chegou a ser
tirado da mãe, pela Justiça, e entregue para uma casa
de adoção, até que uma junta médica comprovasse
que a criança era portadora da doença.
“Para evitar esses constrangimentos, nós orientamos os
familiares de crianças portadoras de OI para que andem sempre
com um cartão de identificação e com uma carta
dos seus médicos, explicando o que é e como se manifesta
a doença, principalmente quando estiverem fora da cidade onde
vivem”, explica Chiasson.
ELA VAI ANDAR!
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A osteogenesis imperfecta entrou na vida da nossa família na
manhã do dia 20 de maio de 1991. Minutos depois do nascimento
da Isadora, minha quarta filha, de parto e gravidez normalíssimas,
o obstetra Paulo Nardelli, me comunicou que iriam tirar umas radiografias
do bebê, apenas por precaução, uma vez que a criança
apresentava um pequeno hematoma numa das coxas.
Reveladas as radiografias, a surpresa foi geral: Isadora tinha duas
fraturas no fêmur, de idades diferentes e uma delas já
consolidada, indicando que foram fraturas intra-uterinas. Diante da
confirmação de uma gravidez sem nenhum traumatismo e de
um parto absolutamente normal, a equipe médica do Hospital Santa
Helena, de Brasília, passou a tarde inteira reunida diante daquelas
radiografias tentando entender o que teria acontecido.
No final da tarde, após um exame mais meticuloso na Isadora,
que constatou a existência de escleróticas azuladas e o
formato triangular da face, o neonatologista do Hospital apontou uma
hipótese provável de diagnóstico: osteogenesis
imperfecta. A maioria dos médicos ali reunida jamais tinha ouvido
falar dessa patologia, inclusive o obstetra Paulo Nardelli, com 30 anos
de experiência e mais de 15 mil partos no currículo.
Esse rápido diagnóstico foi a nossa sorte. Uma semana
depois, Isadora era admitida no Sarah, um centro de excelência
no tratamento de doenças do aparelho locomotor, o que nos dava,
pelo menos a garantia, de que suas fraturas seriam adequadamente tratadas.
Isadora começou o tratamento no final de agosto e vai continuá-lo
em Brasília
De lá para cá foi uma interminável sucessão
de fraturas de todos os tipos e jeitos, quase todas espontâneas.
Nos seus 8 anos de vida, Isadora teve mais de 60 fraturas. Virando no
berço, escorregando na banheira, levando um abraço mais
forte de um coleguinha. Qualquer coisa que para as outras crianças
é corriqueiro, para a Isadora e seus “ossos de cristal”
pode ser uma grave ameaça. Apesar disso, ela é uma criança
normal, alegre, participativa, feliz e muito inteligente.
A confiança nos resultados do tratamento aumentou nossa esperança
Com o passar dos anos, a convivência com outras crianças
na escola e um amadurecimento precoce (outra característica dos
portadores de OI), Isadora passou a alimentar um sonho: ela quer andar,
como as outras crianças. O diagnóstico dos médicos
do Sarah e todas as informações sobre a doença
que conseguimos acumular nesse período nos deixavam impotentes
para tentar realizar o sonho da nossa filha. Nós estávamos
conformados. Isadora jamais iria andar. A nós, caberia a difícil
tarefa de tornar a sua vida melhor, criando todas as condições
para que ela pudesse ser uma criança normal e independente, mesmo
presa a uma cadeira de rodas e vivendo sob a permanente ameaça
de novas fraturas.
Até que, em maio deste ano, nossa vida sofreu uma reviravolta.
Navegando pela Internet descobri, meio que por acaso, uma página
brasileira de osteogenesis imperfecta (www.aguaforte.com/oi), administrada
por Rita Amaral, uma antropóloga da USP, portadora da doença,
com várias informações sobre a osteogenesis imperfecta.
Nessa página havia um texto e vários links para outros
documentos sobre a experiência com pamidronato no Shriners Hospital
for Childrens, em Montreal. Depois de ler esse material, enviei um e-mail
para o dr. Horácio Plotkin, manifestando o meu interesse em ir
a Montreal. Para minha surpresa, meia hora depois recebi uma resposta
do dr. Plotkin agendando uma consulta para a Isadora para o dia 24 de
agosto, aproveitando a semana em que seria realizada, em Montreal, a
7ª Conferência Internacional de Osteogenesis Imperfecta.
Foi difícil esperar chegar esse dia. De maio até agosto,
nos dedicamos intensamente a preparar a viagem, obter os documentos
necessários para a admissão da Isadora no Shriners e no
Canadá e, mais do que isso, viabilizar a continuidade do tratamento
no Brasil, uma vez que não teríamos condições
de viajar 3 vezes por ano a Montreal.
No fim, tudo deu certo. O dr. Aloysio Campos da Paz Jr., diretor da
Rede Sarah, depois de duas conversas, concordou em prosseguir o tratamento
em Brasília, encarregando o geneticista do Sarah, dr. Carlos
Speck, de manter os contatos preliminares com os médicos no Canadá.
Nossa passagem pelo Shriners foi extremamente positiva, não só
pelas informações e conhecimentos que adquirimos, pelo
início do tratamento na Isadora, mas, principalmente, pela convivência
com outras crianças portadoras da doença que aumentou
em todos nós a certeza de que a solidariedade, a força
de vontade e a troca de informações são fundamentais
para tornar a vida dos portadores de osteogenesis imperfecta menos difícil.
Agora, estamos empenhados junto com Rita Amaral e cerca de 10 outros
integrantes da lista brasileira de discussão na Internet sobre
a doença, entre eles o dr. Cláudio Santili, professor
de ortopedia da Santa Casa e presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia
Pediátrica, em criar a Associação Brasileira de
Osteogenesis Imperfecta, com o objetivo de ampliar a divulgação
dessas informações, prestar assistência às
famílias de crianças portadoras da doença e tentar
fazer com que outras crianças brasileiras possam ter acesso a
esse tratamento que representa uma nova esperança para elas.
Quando Isadora estava internada no hospital em Montreal, recebemos do
dr. Plotkin cópias de vários e-mails que haviam sido distribuídos
pela lista brasileira de OI desejando sorte para ela. Um deles nos encheu
de esperança e provocou um sorriso entusiasmado na Isadora. Assinado
pela Rita Amaral, terminava com uma frase profética: “Ela
vai andar!”.
A alegria da Isadora ao lê-lo, o gesto de entusiasmo feito com
o seu braço direito, acompanhado de um grito de “Yes”
e os resultados que vimos em Montreal nos deram a convicção
de que ela pode andar. Ou melhor, de que, se depender do nosso empenho,
dos efeitos do tratamento e da cirurgia para colocação
das hastes telescópicas de titânio, que pretendemos fazer,
em agosto do ano que vem, no Canadá, ela vai andar!
Moacyr Oliveira Filho é jornalista, 46 anos, pai de uma menina de 8 anos, portadora de osteogenesis imperfecta, que iniciou o tratamento com pamidronato no Shriners Hospital for Childrens, no dia 24 de agosto, e participou da 7ª Conferência Internacional de Osteogenesis Imperfecta, em Montreal, no Canadá, de 28 de agosto a 1º de setembro.
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