Eu, Tereza Cristina, tenho
26 anos e sou portadora de Osteogenesis Imperfecta. Moro em São
Paulo, mas nasci em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, chamada
Formiga, em 7 de fevereiro de 1976.
Quando nasci, o médico
disse a minha mãe:
"OLHA, SUA FILHA TEM UM PROBLEMA
E NÃO VAI VIVER MUITO".
Essas
palavras chocaram minha mãe e sua família. Afinal, eu era
e sou a única portadora de deficiência na família e
tenho três irmãos (dois irmãos mais velhos e uma irmã
caçula). Assustados, a primeira coisa que fizeram foi me batizar,
pois minha mãe, muito religiosa, não deixaria sua filha
morrer pagã.
Nasci com o fêmur,
a tíbia e o perônio de ambas as pernas fraturados (as
pernas estavam dobradas em cima de minha barriga e assim ficaram
ate que se fortificaram).
Muitos médicos, corre
pra lá e pra cá, informações desencontradas
e ninguém sabia ao certo o que eu tinha. Tudo isso até eu
completar três anos, quando um médico amigo de uma conhecida,
esclareceu minha mãe sobre o que eu tinha e o que deveria fazer
pra que eu vivesse bem:
"CUIDADO COM ELA, PORQUE
VAI SOFRER MUITAS FRATURAS ATÉ QUE SE TORNE MOCINHA. DEPOIS ELAS
VÃO CESSAR. DÊ ATENÇÃO E CARINHO".
Estas palavras aliviaram
minha mãe e me ajudaram a crescer.
Na minha primeira tentativa
de ficar em pé no berço, quebrei a perna e só comecei
a
andar com três anos,
em meio a muitas outras fraturas.
Sempre
fui muito espertinha, muito custosa, muito teimosa. Brincava com as outras
crianças, fugia de casa escondida pra brincar na rua, subornava
minha irmã pra andar na sua bicicleta sem que a minha mãe
visse. Eu tinha um velotrol e com ele aprontava por ai: "sai da frente
que lá vem a Formiguinha!".
Sempre freqüentei escolas
públicas que nunca foram adaptadas, mas que sempre me receberam
muitíssimo bem. Tive ótimos professores e excelentes colegas
de classe que sempre me ajudavam quando eu aparecia quebrada ou faltava
pelo mesmo motivo.
Sempre freqüentei a
escola, mesmo quando estava engessada, e me formei Professora Primária;
mas não exerço a profissão. A faculdade é um
sonho ainda não realizado, mas estou quase lá. Quero ser
Psicóloga.
Aos
nove anos, descobri que tinha escoliose; fiz uma cirurgia, mas não
foi bem. Usei um aparelho pra manter a coluna ereta durante longos seis
anos. Era uma tortura. Com dezesseis anos fiz a segunda cirurgia e, ai
sim, fiquei livre do aparelho, sem dores, pronta pra outra. Fiz outras
duas cirurgias no maxilar em conseqüência do aparelho e, a última,
no ouvido direito, pois estava perdendo a audição. Hoje ando
normalmente, sem nenhum aparelho, bem independente.
Adoro viajar, seja sozinha
ou acompanhada.Trabalho, me divirto também, adoro música,
dançar, cantar, ler, escrever. A Net me foi bem vinda, pois através
dela até arrumei um namorado, que deixou de ser virtual pra ser
real. Fiz e faço amigos de longe e de perto. Sou uma pessoa esforçada,
alegre, otimista, determinada, corajosa, teimosa, meiga e inteligente.
Sonhos, tenho muitos: crescer profissionalmente como psicóloga,
casar , ter filhos (ainda não sei se de maneira natural ou adotados,
mas, sim, os terei), e a cada dia renovo meus sonhos, pois sem eles não
há esperança de um futuro melhor.
Agradeço muito a Deus
por hoje estar aqui, por ter amigos, pela vida, ainda que ela
não seja exatamente
como queremos, mas sim ela "É BONITA , É BONITA, É
BONITA ... VIVER E NÃO
TER A VERGONHA DE SER FELIZ..."
E
agradeço também à minha mãe, minha amiga e
companheira, que me acompanha nas minhas idas e vindas, pela sua paciência
, amor e dedicação.
"AS PESSOAS MAIS FELIZES
NÃO SÃO AS LIVRES DE PROBLEMAS, MAS AQUELAS QUE SABEM LIDAR
COM OS PROBLEMAS "
Sobre as fotos: na primeira
eu tenho 1ano e 3 meses. Na que eu estou de braço engessado eu tinha
4 anos. Na que estou sentada com as bonecas, tinha 10 anos
e na que estou de pé,
com 25 anos.
São
Paulo, 2002
Tereza Cristina